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Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Poema de Sofia de Mello Breyner Andersen que foi também usado como letra de música homónima de Francisco Fanhais.
Pode ver a versão da música aqui.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escritor, Poeta, Vencedor do Prémio CamõesVemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror
A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças
D’África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado
Poema de Sofia de Mello Breyner Andersen que foi também usado como letra de música homónima de Francisco Fanhais.
Pode ver a versão da música aqui.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escritor, Poeta, Vencedor do Prémio CamõesEu, a literatura, bebi-a todos os dias na Castália dos parnasianos da Folha, no gabinete do nosso popular Crespo, que, por sinal, tinha o requintado escrúpulo artístico de sujeitar os seus versos novos a serem lidos, de alto, logo à primeira, por um profano como eu. O quarto de Junqueiro, hoje pontífice máximo das letras, era também um tabernáculo da minha particular devoção. Foi lá que, um Inverno, que a geada caía em flocos cá fora, nós mal sentimos os seus rigores, abraçados pelas chamas do teatro de Hugo. E, assim como para Víctor Hugo tive Junqueiro, ainda pude ter António Cândido para Castelar, José Frederico Laranjo lia-me em Platão e Xenofonte os diálogos de Sócrates, averbando-me de sofista, quando eu, irreverentemente, objectasse. E era ele também que, palpitante de esperanças redentoras, me recitava o verbo cordial do socialismo tanto no positivista Saint-Simon como no utópico Fourier, Proudhon, ouvi-o ainda antes, sobretudo nos trechos mais contundentes, a Marçal Pacheco, que, dizendo-se vingador duma série infinita de proletários espoliados, seus ascendentes, afiava as armas de polemista para o áspero strugle for life.
Bernardino Machado
Político, Presidente da República PortuguesaMeus Senhores: esta Assembleia Nacional Constituinte acaba de depositar nas minhas débeis mãos um tesouro quatro vezes precioso: o da Liberdade, em nome da qual trataremos, com o auxílio de todos os que vierem em volta de nós, de eliminar todos os privilégios que, sendo mantidos à custa da depressão e ofensa dos nossos semelhantes, são para mim malditos.
Depositou, além da Liberdade, uma coisa sagrada acima de todas: a Honra da Pátria.
Perante o estrangeiro e perante a nossa consciência, nós vamos honrar, com os nossos sacrifícios, por uma solidariedade inevitável, uma triste herança – a do passado, cheio de compromissos por culpas que não são nossas – encontraremos, no entanto, na alma do povo, energias bastantes para nos redimirmos aos olhos do mundo.
Nas virtudes democráticas buscaremos os elementos da nossa regeneração.
Não falemos mais nos erros dos contrários depois de os condenarmos, porque as virtudes da democracia valem bastante para esquecermos os inimigos da Pátria.
Há outro tesouro, principalmente, precioso: o Povo Português – este tutelado de séculos que está completamente desvalido, sem a luz da justiça moderna!…
É necessário acalentar aquelas almas, enriquecer e arrotear aqueles corações perdidos para a Verdade, para a Justiça e para o Amor.
Este o objetivo mais dileto do meu coração – os oprimidos.
Resta-me lembrar a simpática missão de chamar à conciliação, à paz, à ordem, à harmonia social a família portuguesa, em nome da Liberdade, em nome da República, em nome da nossa libérrima Constituição.
Segundo os princípios nela consignados, e sob a intervenção direta do povo soberano, deixarão de existir, como até agora, opressores e oprimidos; daí o antagonismo irritante das classes ligadas pela fatalidade e pela força e não, como de hoje em diante, pelo Amor e pela Justiça – cumpre-nos fazer do nosso Estatuto a Cidade Santa do Direito Moderno; conseguir que este direito seja tão invejado pelos nossos inimigos, como outrora o foram as cidades de Atenas e de Roma.
Hão de vir para nós os que de nós fugiram. Em nome da Pátria e da Liberdade, nós aqui estamos para os receber.
E, a vós, o tributo inalterável da minha gratidão, por confiardes num velho que pouco vale, mas que poderá muito com o vosso auxílio.
Discurso de tomada de posse de Manuel de Arriaga na Assembleia da República
Manuel de Arriaga
Advogado, Político, Presidente da República PortuguesaO abuso do poder só desordem e anarquia pode gerar. Ao contrário, a semente do idealismo que vamos espalhando, as mãos largas sobre a sociedade sequiosa da Verdade que ilumine e dirija seus passos, desabrochará fatalmente em frutos abençoados de amor e confiança.






