Eu, a literatura, bebi-a todos os dias na Castália dos parnasianos da Folha, no gabinete do nosso popular Crespo, que, por sinal, tinha o requintado escrúpulo artístico de sujeitar os seus versos novos a serem lidos, de alto, logo à primeira, por um profano como eu. O quarto de Junqueiro, hoje pontífice máximo das letras, era também um tabernáculo da minha particular devoção. Foi lá que, um Inverno, que a geada caía em flocos cá fora, nós mal sentimos os seus rigores, abraçados pelas chamas do teatro de Hugo. E, assim como para Víctor Hugo tive Junqueiro, ainda pude ter António Cândido para Castelar, José Frederico Laranjo lia-me em Platão e Xenofonte os diálogos de Sócrates, averbando-me de sofista, quando eu, irreverentemente, objectasse. E era ele também que, palpitante de esperanças redentoras, me recitava o verbo cordial do socialismo tanto no positivista Saint-Simon como no utópico Fourier, Proudhon, ouvi-o ainda antes, sobretudo nos trechos mais contundentes, a Marçal Pacheco, que, dizendo-se vingador duma série infinita de proletários espoliados, seus ascendentes, afiava as armas de polemista para o áspero strugle for life.

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