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Somos todos escravos da tecnologia. Lembro-me da sabedoria desses grandes homens que viajavam pelo mundo e passavam por terras diferentes, diferentes línguas.
Não conheciam e acabavam por conhecer aquelas gentes e os seus modos de vida diferentes, de um lado para o outro, até à China e por aí fora. Era admirável, não era?
Hoje não, vai-se de avião, não se sente nada.
Manoel de Oliveira dissertando sobre a tecnologia.
Manoel de Oliveira
Actor, Empresário, RealizadorEscravidão é um mal, e um ataque contra os direitos e dignidade da espécie humana, porém suas consequências são menos prejudiciais para aqueles que sofrem no cativeiro do que para a Nação cujas leis permitem a escravidão. Ela é um câncer que devora a moralidade.
D. Pedro IV
Rei de PortugalAntes de ir para a Câmara
Já no duro eu trabalhava
Fazia bolas de carvão e breda
E muita lenha cortava.
Foi para o Hotel Duarte
Que depois fui trabalhar
Tratava do jardim e recados
E tinha a lenha para serrar.
Também no Café Havaneza
Eu a lenha serrava
E ali naquela cozinha
Aos melhores doces cheirava.
Visitantes que viessem a Mafra
Perguntavam com delicadeza
Onde ficava os pastéis de feijão
Da Pastelaria Havaneza.
A minha vida foi sempre a trabalhar
Assim mesmo tinha que ser
Pois tinha mulher e seis filhos
Que precisavam de comer.
Um dia disse-me o Sr. Dr. Galrão:
– Sebastião isto assim não pode ser
Eu vou falar com o Capitão Lopes
Para na Câmara te meter.
Ele foi falar com o Sr. Capitão Lopes
E este acabou por lhe responder:
– Que trabalho lhe hei-de arranjar
Se ele não sabe ler nem escrever?
Por não saber ler nem escrever
Há muito trabalho para dar
Há muitas ruas para varrer
E muitas ervas para rapar.
Tenho muito a agradecer
Digo mesmo do coração
Agradeço ao Sr. Capitão Lopes
E ao Sr. Dr. Carlos Galrão.
E assim entrei para a Câmara
Mas foi como assalariado
Não ganhava quando chovia
O sonho era entrar para o Quadro.
Os meses foram passando
E até alguns anos passaram
Quando no Quadro dei entrada
E à Câmara me chamaram.
Recebi com alegria a notícia
Isto é uma realidade
O trabalho para mim é orgulho
Digo com toda a sinceridade.
Muitos anos se passaram
Ao trabalho nunca faltei
Aos 70 anos me homenagearam
E o meu rico trabalho deixei.
No dia que fiz 70 anos
O trabalho tive de deixar
Deram-me um diploma
E mandaram-me descansar.
Sebastião Jacinto
Poeta, Poeta PopularJá Mafra se pôs de luto
Eu bem conheço a razão
Já morreu o «Pai dos Pobres»
Que era o senhor Dr. Galrão.
A cavalo num burrito
Ia ver qualquer doente
Nunca ganhou para automóvel
Por fazer bem a toda a gente.
Quando eram doentes pobres
Mandava o remédio aviar
Mas punha logo na receita
Que ele depois ia lá pagar.
Ele quis ir para campa rasa
Para mostrar a pobreza
Para a vida espiritual
Nada nos vale a riqueza.
Sebastião Jacinto
Poeta, Poeta PopularQuando eu fui para a Câmara
Logo fui para a serventia
Lamentava a minha sorte
Não ganhava quando chovia.
Dirigi-me ao senhor Capitão Lopes
Falei-lhe com toda a franqueza:
– Soube que há uma vaga
Veja se me mete na limpeza.
– Pois eu vou-lhe tratar disso
Alguma coisa hei-de fazer…
Mas você é curto de vista
Pouco deve dar para varrer…
– Agradeço a Vossa Excelência
A sua melhor atenção
Eu não quero enfiar agulhas
Mas sim para varrer o chão…
– Você tem sempre dessas respostas
Como é que me hei-de interessar?
Mas apesar de tudo isso
Alguma coisa hei-de arranjar.
Sebastião Jacinto
Poeta, Poeta PopularOrdinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista.
É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?




