A vida de um Saloio de gema nascido no início do Século XX era dura e a sucessão das crises que levaram à Primeira República, a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão foram sem dúvidas marcantes na vida de Sebastião Jacinto nascido no dia de São Sebastião, 20 de Janeiro, de 1908.

Nascido na pequena aldeia de Montesouros cedo repartiu a vida entre servir os mais abastados, tentar ter o seu pequeno negócio e mais tarde a vida de funcionário público entre as obras públicas e o serviço de cantoneiro.

Mas o que o tornou uma personagem conhecida na bela vila de Mafra foi a sua poesia que declamava a quem quer que lhe desse uns minutos para a ouvir. Mesmo sem saber ler nem escrever toda a vida sempre manteve o talento inato para as rimas tradicionais, e facilmente contava qualquer acontecimento em verso. O estilo mordaz, sarcástico e indiscutivelmente castiço fez dele alguém amado em Mafra não apenas pelos seus seis filhos, e respectivos descendentes, mas por todos aqueles que com ele privaram.

Do muito que criou a grande maioria se perdeu visto ser uma criação cem por cento oral, mas muitos amigos, e mais tarde alguns filhos, foram escrevendo algumas das suas criações, e algumas delas chegaram até aos nossos dias.

Em 2009 a Câmara Municipal de Mafra atribuiu o seu nome a uma rua em Mafra.

Citações

Antes de ir para a Câmara
Já no duro eu trabalhava
Fazia bolas de carvão e breda
E muita lenha cortava.

Foi para o Hotel Duarte
Que depois fui trabalhar
Tratava do jardim e recados
E tinha a lenha para serrar.

Também no Café Havaneza
Eu a lenha serrava
E ali naquela cozinha
Aos melhores doces cheirava.

Visitantes que viessem a Mafra
Perguntavam com delicadeza
Onde ficava os pastéis de feijão
Da Pastelaria Havaneza.

A minha vida foi sempre a trabalhar
Assim mesmo tinha que ser
Pois tinha mulher e seis filhos
Que precisavam de comer.

Um dia disse-me o Sr. Dr. Galrão:
– Sebastião isto assim não pode ser
Eu vou falar com o Capitão Lopes
Para na Câmara te meter.

Ele foi falar com o Sr. Capitão Lopes
E este acabou por lhe responder:
– Que trabalho lhe hei-de arranjar
Se ele não sabe ler nem escrever?

Por não saber ler nem escrever
Há muito trabalho para dar
Há muitas ruas para varrer
E muitas ervas para rapar.

Tenho muito a agradecer
Digo mesmo do coração
Agradeço ao Sr. Capitão Lopes
E ao Sr. Dr. Carlos Galrão.

E assim entrei para a Câmara
Mas foi como assalariado
Não ganhava quando chovia
O sonho era entrar para o Quadro.

Os meses foram passando
E até alguns anos passaram
Quando no Quadro dei entrada
E à Câmara me chamaram.

Recebi com alegria a notícia
Isto é uma realidade
O trabalho para mim é orgulho
Digo com toda a sinceridade.

Muitos anos se passaram
Ao trabalho nunca faltei
Aos 70 anos me homenagearam
E o meu rico trabalho deixei.

No dia que fiz 70 anos
O trabalho tive de deixar
Deram-me um diploma
E mandaram-me descansar.

Um resumo de Sebastião Jacinto da sua vida de trabalho

Sebastião Jacinto

Poeta, Poeta Popular

Já Mafra se pôs de luto
Eu bem conheço a razão
Já morreu o «Pai dos Pobres»
Que era o senhor Dr. Galrão.

A cavalo num burrito
Ia ver qualquer doente
Nunca ganhou para automóvel
Por fazer bem a toda a gente.

Quando eram doentes pobres
Mandava o remédio aviar
Mas punha logo na receita
Que ele depois ia lá pagar.

Ele quis ir para campa rasa
Para mostrar a pobreza
Para a vida espiritual
Nada nos vale a riqueza.

O falecimento do Dr. Carlos Galrão, ocorrido a 3 de Agosto de 1953, foi sem dúvida um dos grandes desgostos da vida de Sebastião Jacinto. Estes versões foram feitos em jeito de homenagem aquando a sua morte.

Sebastião Jacinto

Poeta, Poeta Popular

Quando eu fui para a Câmara
Logo fui para a serventia
Lamentava a minha sorte
Não ganhava quando chovia.

Dirigi-me ao senhor Capitão Lopes
Falei-lhe com toda a franqueza:
– Soube que há uma vaga
Veja se me mete na limpeza.

– Pois eu vou-lhe tratar disso
Alguma coisa hei-de fazer…
Mas você é curto de vista
Pouco deve dar para varrer…

– Agradeço a Vossa Excelência
A sua melhor atenção
Eu não quero enfiar agulhas
Mas sim para varrer o chão…

– Você tem sempre dessas respostas
Como é que me hei-de interessar?
Mas apesar de tudo isso
Alguma coisa hei-de arranjar.

Transcrição de Sebastião Jacinto do diálogo que teve com o Capitão Lopes, Presidente da Camara de Mafra na altura, quando foi ter com ele em busca de mudança de posto de trabalho para um onde pudesse ter trabalho efectivo todo o ano.

Sebastião Jacinto

Poeta, Poeta Popular
O que a minha avó dizia
Ninguém queria acreditar
As estradas «poriam-se» de luto
E o mundo se devia enliar.

As aldeias presas às vilas
E as vilas às cidades
Agora é que eu estou a ver
Que ela dizia verdades.

Eu ainda era miúdo
Mas lembro-me de ela contar
Os homens haviam de querer ir p’rá guerra
Como o gado a pastar.

Tudo isto que ela me contava
Erro eu não acho nenhum
Que p’rá era dos dois cincos
De um cento escapava um.

Tinha nove p’ra dez anos
Lembro-me de ela contar
E olhando para seus netos
Começa logo a chorar:
– P’rá era de mil nove e oitenta
Feliz é quem não lá chegar.

Mas hoje é que eu compreendo
O que ela queria dizer
Que haviam de ficar dois homens
E não se poderem entender.

Mas hoje é que eu compreendo
E vejo que tinha razão
Esses dois homens que ficam
É um chefe em cada nação.

Isto é um pequeno resumo
Que eu mais não sei explicar
Mas o que dizia a pobre velha
É o que se está a aproximar.
Neste poema, datado da década de oitenta, fala de algo que a sua avó dizia e que a coloca junto da situação de Guerra Fria que se vivia na altura considerando-a profética.

Sebastião Jacinto

Poeta, Poeta Popular
A visita do General Franco
A muitos causou tristeza
Só mostraram as regalias
Em vez de mostrarem as tristezas.
 
A inteligência dos portugueses
Pouco mais é que a dum caracol
Anda tudo em construção
Por causa de vir cá o Franco espanhol.
 
Daqui amanhã não há verba
Despedem o pessoal
Assim se vê a miséria
Que nós temos em Portugal.
 
Veio cá a polícia espanhola
Que não merece consideração
Puseram fora do Palácio
O velho amigo Dr. Galrão.
 
Ele tinha o convite consigo
Mas não se quis encomodar
Foi a polícia espanhola
Que o mandou retirar.
 
Nem olharam p´rá idade
Digo mesmo com franqueza
Um homem com 93 anos
Que foi sempre o «pai da pobreza».
Francisco Franco, Generalíssimo de Espanha e seu lider absoluto em regime ditatorial, visitou Mafra em Outubro de 1949 integrado numa visita das mais altas figuras espanholas a Portugal. Neste poema Sebastião Jacinto conta que um dos ilustres de Mafra na altura, o Médico Dr. Carlos Galrão conhecido como Pai dos Pobres, foi barrado à entrada do jantar em Honra do ditador espanhol pela Guarda Cívil que o acompanhava. Isto porque num acto de protesto se recusou a mostrar o convite que trazia consigo.

Sebastião Jacinto

Poeta, Poeta Popular
Ó rico ganancioso
Reparte com quem não tem
Lembra-te de quem trabalha
que sem ele não és ninguém.

Arrepende-te que estás a tempo
De cumprir o teu dever
Mas lembra-te que o desgraçado
Não ganha para se manter.

Lá vem um dia mais tarde
Que te encontras arrependido
Olha que a riqueza da terra
Não a levas p’ró jazigo.

Sabe Deus o que custa
Por esmola pedir pão
Mas se os polícias o encontram
Ameaçam-no com a prisão.

Lá vai o pobre mendigo
Para a rua a mendigar
Muitas é a fome
Que o obriga a roubar.

Sebastião Jacinto

Poeta, Poeta Popular

Dados Biográficos

Nasceu a 1908–01–20
em Mafra, Portugal

Faleceu a 1988–02–27
em MafraPortugal

Poeta, Poeta Popular

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